11 de dez de 2009

Capítulo 4 - A infância

Curiosidade é algo bom. O ser humano evoluiu com ela, nós, vampiros, evoluímos com ela. Eu sou curioso. Extremamente curioso. E é por isso que eu sei por que você está aqui, está curioso. Não é de se admirar que um ser da noite cause curiosidade aos olhos de seres terrenos e vivos. Hoje, falarei sobre a minha infância, foi um pedido especial da minha noiva, então, atendi.

Nasci em Paris, em 1903. E foi lá que passei a minha infância, uma infância praticamente humana, vale lembrar. Antes de falar dessa época, deixe-me relembrar alguns fatos importantes. Vamos falar primeiro da minha família.

Há muito tempo, em uma galáxia muito distante, minha avó conheceu o meu avô, o que resultou no meu pai. Minha avó, vinha de uma família simples, até ser transformada à muito tempo atrás, e meu avô era humano, e vinha de uma família rica e poderosa. Meu avô morreu muito antes de eu nascer, morreu muito antes do meu pai conhecer minha mãe. Meu pai, era um engomadinho, cientista, e minha mãe era bailarina, uma artista. Artistas não eram muito bem vistos, minha avó não aceitou tão bem uma bailarina sem sobrenome. Ela tinha sobrenome, Martin Chevalier, mas, Martin é o Silva da França, e Chevalier também é muito comum, minha mãe era uma bailarina, linda, alta, magra, tinha classe, era elegante, mas não tinha berço. Não tinha sobrenome.

Bem, mas o fato, é que meus pais se casaram, compraram uma casa, na verdade, um apartamento, em Ile-de-France, Paris-08, no mesmo arrondissement que a Champs Elysees e o Arc de Triomphe, na França. Rue Quentin Bauchart, próximo ao Sena pela Avenue Marceau, a apenas uma ponte de distância do Parc du Champs de Mars e da Tour Eiffel, pela Av. Rapp. Um bom lugar para se viver, uma localização realmente muito boa, e um apartamento obviamente muito pequeno.
Com dois pequenos quartos. Meu pai, nascera em Paris-06, o bairro mais
caro para se viver, onde ficam o Palais du Luxembourg e o Boulevard
Saint-Germai. Minha avó mora em Paris-06 desde que eu me lembro.
Além de possuírem alguns Châteaus no interior da França. Minha mãe
também era francesa, mas eu nunca soube de onde exatamente ela era.
Sei que não era muito rica, mas também, não era pobre, digamos que
vivia bem. Costumo imaginá-la em algum bairro movimentado, com várias
lojas, cafés e livrarias, algo como o Quartier Latin. Não sei por quê. 

Voltando, meus pais viviam uma vida feliz, praticamente às margens do Sena, tendo o Arco do Triunfo no quintal de casa, apenas os dois, felizes, enquanto minha mãe dava aulas de ballet, e meu pai estudava conceitos biológicos muito estapafúrdios para a época - ele realmente se interessou demais pela descoberta dos tipos sanguineos em 1900, ele ainda é meio obcecado por isso - Enfim, um verdadeiro conto de fadas. Até que alguns anos depois, resolveram cometer a maior idiotice de suas vidas. Resolveram ter filhos.

Talvez, você não saiba, mas a gravidez de vampiras é muito perigosa. Hoje em dia, nem tanto, mas, em 1903, as coisas não eram tão fáceis. Eu sei, que a minha mãe perdeu muito sangue, coisa que não pode acontecer com vampiros. E que não é difícil de ocorrer em uma gravidez de gêmeos. Eu e minha irmã nascemos no dia 24 de novembro de 1903, e no mesmo dia, minha mãe faleceu. Meu pai ajudou no parto, ele a viu morrer.

Meu pai, pelo que sei, mudou muito depois disso. Ele entrou para a política (vampírica) junto de sua família, e   digamos que eu nunca o vi muito em casa, ele se ocupou demais de trabalho para não ter que pensar, e não sofrer, imagino. Eu e minha irmã fomos criados pela minha avó. Eu tive uma boa infância. Acho. Não me lembro bem. Mas não me lembro de reclamar. Minha avó não é um exemplo de paciência e saber lidar com crianças, parecia mais uma daquelas velhas loconas. Ela é meio maluca. Na verdade, a minha avó já não tinha mais paciência para duas crianças como eu e a minha irmã, ainda mais humanos - vampiros nascem humanos, apenas adquirem as características vampíricas por volta da adolescência, quando começam a sentir sede por sangue. Até então, somos humanos, e envelhecemos como uma criança normal. Na verdade, o primeiro sinal de vampirismo é com uns sete anos, quando se troca os dentes. Ganhamos dentes de vampiros, que são mais afiados e acreditem, dói MUITO quando estão nascendo. São imperceptíveis (para humanos, mas vampiros reconhecem), apenas os caninos levemente maiores, mas quem os têm sabe do que eu estou falando. Dói.

Voltando à minha avó, ela não tinha muita paciência comigo e minha irmã, então, arrumava alguns tutores para darem aulas à nós, eu mesmo só fui conhecer uma escola quando entrei no lycée, o ensino médio. Mas, vamos com calma. A minha infância foi assim, eu e minha irmã passavamos horas intermináveis com tutores, enquanto meu pai trabalhava e minha avó, bem, minha avó vivia a vida dela, ela também trabalhava na política, não tanto quanto meu pai, que além de tudo, ainda era um cientista obcecado com A, B, AB, O.. Quando eu e minha irmã ficávamos sós em casa, geralmente saíamos, para algum lugar qualquer de Paris, pela localização, geralmente íamos brincar na Champs de Mars, ou na Champs Elysees, até algum guarda vir reclamar da bagunça e nós dois corrermos como dois ladrões.
Era divertido.
Assim foi até termos idade suficiente para entrar para o lycée. Eu já estudei em muitas escolas, mas, da primeira, a gente nunca esquece, Lycée Henri IV, no Quartier Latin, o Quarteirão Latino. Se quer uma dica de um bom lugar para se conhecer na França, essa é a minha, vá ao Quartier Latin! Isso se você for como eu e adorar cultura, cafés e livros. Eu gosto. Sim, vampiros bebem café. Eu gosto de café. Voltando a minha escola, eu tinha 21 anos (e aparência que poderia passar por 15/16, a idade para começar o ensino médio na França) quando pisei em uma escola pela primeira vez, o Lycée Henri IV era uma escola grande e bastante conhecida em Paris, devia ser engraçado, por que, eu estava meio deslumbrado. Quer dizer, lembra como foi entrar numa escola com 7 anos? Imagine alguém que realmente conhece uma escola com 21, um jovem vampiro, que ainda está tentando aprender a lidar com a sua sede, e que fica encantado com a novidade de tudo. Colegas, professores, a escola, um prédio grande, salas de aula, era tudo tão... Alheio ao meu mundo. Eu adorei! E quanto a estudar, não era um problema para mim, eu já sabia praticamente tudo o que os professores ensinavam, ter tutores ajuda muito quanto a isso. Na verdade, eu era uma peste. Era aquele aluno que os professores não suportam, mas fazia muito sucesso entre os estudantes. Eu descobri que eu podia ser uma criatura muito mais sociável do que eu imaginava.

Com a minha irmã foi mais complicado, ela sempre foi a típica nerd, então, o pessoal pegava no pé dela. Eu resolvia isso na maioria das vezes, era só manda-los deixar a minha irmã em paz. O problema é que as vezes eu me sentia culpado por me divertir tanto enquanto ela, bem, ela não se divertia. Mas, bem, foram bons tempos.

Bem, acho que eu já escrevi demais, não? Falei dos meus avós, meus pais, meu nascimento, infância, e até do ensino médio... Até cansei, rs Enfim, por agora, isso é tudo. Até mais.

Lycée Henri IV (anos 1900)

Lycée Henri IV (atual)

Ah! Só para que conste, no último dia 24, eu completei 106 anos. Parabéns pra mim.